Como Nossos Pais
A história do Amebairro antes do Amebairro
Por Helena ‘Ratonica’ Machado e Glauco Machado
Alguns dos nossos leitores talvez já saibam, mas a maioria acredito que não, que os meus pais têm o seu próprio Amebairro: a CAGUE: Confraria dos Alcoólatras Glutões Unidos da Engenharia. Pensando bem, talvez possamos dizer que nós do Amebairro é que temos nossa própria CAGUE – um grupo de amigos já de muitos anos, que ganha proporções tão exorbitantes que começa a planejar eventos de grande porte, produzir camisetas oficiais para membros e simpatizantes e se torna um coletivo, e acima de tudo, uma família. Alguns meses atrás, a Isadora nos convidou para ouvir o Sirso tocar no Nina com o Chorando em Conjunto. Como meu pai é um grande fã de choro, o convidei também. Durante a noite, rememoramos várias anedotas famosas (e infames) do Amebairro enquanto meu pai compartilhava conosco suas histórias de juventude com a CAGUE (muitas delas envolvendo carros – nota: garantir um Amecar em 2026), e surgiu a ideia dele escrever sobre a CAGUE aqui para o Substack. Ele não entendeu direito qual era o propósito, mas escreveu mesmo assim:
Provocado por uma jovem confreira – será que existe esta palavra? – busco rememorar algo desta peculiar confraria que remonta o ano de 1991 ou 1992. Estejam, então, comigo nos pátios, salas e laboratórios do curso de engenharia eletrônica do então CEFET-PR, hoje UTFPR. Estudávamos meio juntos, em turmas mais ou menos coesas, dependendo do quanto tínhamos de energia, tempo e paciência para mantermo-nos periodizados. Todos trabalhavam e estudavam e estávamos espalhados cursando disciplinas entre o 2º e o 8º semestres do curso, e muitos já tinham estudado juntos no curso técnico de Eletrônica, nos idos de 1985, mais ou menos. Nossos encontros fortuitos ocorriam em momentos espontâneos – festas esparsas, trotes aos calouros, bares das imediações. Mas parecia que algo... ahnn... diferente talvez, conectava alguns de nós. Um jeito de se portar, de se expressar ou, como se dizia em relação ao velho e já moribundo rock’n roll, talvez algo de uma atitude em relação às coisas que nos estavam postas por aqueles tempos.
Mas, sem dúvida, o que nos uniu definitivamente foram as Festas do Tatsuo. Em uma chácara em Campo Largo com estrutura simples, mas com lago, cancha de futebol e um pequeno galpão coberto, promoviam-se festas memoráveis, daquelas que, inclusive, lembra-se muito pouco ao final. Eram encontros de dezenas de estudantes de diversos cursos universitários, pois o Tatsuo, saudoso amigo, era uma pessoa de trânsito variado e intenso no CEFET e na UFPR e amigos dos amigos foram se somando ao núcleo da engenharia – por onde Tatsuo também tinha passado brevemente – e assim íamos nos aproximando mais e mais em uma ampla rede de gente animada, interessante e também doidos por uma festa.
Um belo dia, então, nos idos de 1991 ou 92 – não lembro mais direito – foi declarada a ideia da nomeação: confraria dos alcoólatras, glutões, unidos da engenharia. Estava fundada a CAGUE, até onde sei em uma criação conjunta dos amigos Ulisses e Rodrigo, e uma primeira camiseta foi concebida para “identificar” os participantes da confraria. E as histórias deste pessoal que se reunia para beber e fazer churrasco com alguma assiduidade foram se seguindo com bares ao redor do CEFET, viagens juntos, jantares em churrascarias registrados em ata, finais de ano, carnavais, festas de formatura…
…novos empregos, aberturas de empresas, concursos, casamentos, velórios, eleições, separações, nascimento de filhos e até de netos.
Mas, voltando ao princípio, fazíamos contato por telefone (fixo!) e eu, por exemplo, sabia decor os contatos do pessoal e assim íamos marcando nossas festas e rolês. Mais ao final do curso (1996), com a incipiente viabilização da internet passamos a trocar mensagens em algo como uma lista de distribuição de e-mails hospedada em um servidor e fomos avançando para grupo simples de e-mails até chegar ao grupo de WhatsApp que nos “atende” até hoje.
Faz, portanto, em torno de 35 anos que nos conhecemos e convivemos e já ouvi falar mais de uma vez que os laços que desenvolvemos são muito mais consistentes do que o que mantemos com alguns de nossos familiares mais próximos. Nossos filhos declaram-se também pertencerem à CAGUE – e são legítima e absolutamente bem-vindos! A gloriosa e melhorada 2ª geração da CAGUE!
Não há um número muito definido de membros da CAGUE. Acho que somos uns 40 ou 50. Há engenheiros em profusão, mas também temos psicólogos, médicos, advogados, historiadores e publicitários. Estamos em diversas cidades e também em outros países, mas sempre que podemos nos reunimos pra fazer churrasco e beber competentemente, fazendo jus à vocação da confraria.
Como meu pai disse, eu me considero parte da CAGUE e faço parte da segunda geração. A CAGUE é, para mim, literalmente uma extensão da minha família, que esteve comigo desde o nascimento, me viu crescer, e que considero muito mais família que muitos parentes! Sei que se precisar de algo tenho neles uma rede de apoio. Minhas memórias de infância são povoadas por incontáveis churrascos no Ulisses, réveillons na Hildamara e Alex, viagens à praia com o Catarina, copas do mundo na Alessandra, e tantos outros natais, aniversários, casamentos, bares, visitas.
Agora, na juventude, estou construindo essa mesma relação de fraternidade, de família com o Amebairro. Tive a imensa sorte de ter não uma, mas duas famílias além da tradicional: uma herdada dos meus pais e uma que estou formando agora! Estamos a cada encontro juntos estreitando nossos laços e criando nossas próprias tradições, vivendo as histórias que contaremos para a segunda geração (vai haver uma, é inevitável) e criando nossa própria comunidade e rede de apoio. Gosto de pensar que o Amebairro está aí para continuar – e superar! – o legado da CAGUE, mesmo que nenhum dos outros membros soubesse da existência dessa outra confraria antes: vamos fazer MAIS festas e festas MAIORES que as da CAGUE, vamos ser MAIS legais e também MUITO MAIS chatos que a CAGUE, seremos MAIS nerds, MAIS gays (esse não é muito difícil), faremos MUITO MAIS rock e ainda vamos LUCRAR1 com isso (camisetas disponíveis em https://plazaaaaa.com/amebairro, adesivos ainda em produção).
Só posso concluir esse texto (e esse ano) agradecendo pela sorte de fazer parte desses dois coletivos tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos, que têm tanta força e singularidade que quase deixam de serem grupos para serem entidades à parte. Que venham mais 35 anos para a CAGUE, mais 35 anos para o Amebairro, e que venham com muita festa e cerveja. Família é tudo, e essas duas são a minha.

O lucro do Amebairro com a venda de seus produtos é ínfimo (sério, é tipo, 56 centavos por camiseta vendida).




